Quinta-feira, Maio 14, 2009

Coisa mais linda II, a ressaca


Mais um par de três histórias que esqueci de contar na última crônica, lapso de memória causado não me perguntem por quê. Três historietas sobre a beleza daquele estado de espírito único originado por alguns goles a mais, não importa onde, quando, e com quem estejamos. E como a última narrativa foi encerrada com uma das máximas de Mary Black, nada mais justo que eu me redima de meu esquecimento iniciando esta com um episódio vivido com ela:


Quando de sua visita a São Paulo, estávamos eu, Mary Black e sua alma gêmea, Maryo Blacko, em uma mesa de bar (usual local de encontro com minha amiga, ainda que varie a mesa, o bar, a cidade...) da Augusta. MB divertia-se ao lembrar de sua recente descoberta gastronômica, o quibebe de abóbora, que havia almoçado na véspera (a graça não era o prato em si, mas seu nome. Realmente, o motivo de se chamar um purê de abóbora de quibebe de abóbora – e por que não quibebe de batata? - ainda é um dos mistérios da humanidade que permanecem sem solução, assunto ideal para ser abordado em ocasiões como essa...).

“Quibebe? Eu também sou uma ‘quibebe’”, divertia-se ela com o trocadilho, enquanto virava mais uma tulipa de cerveja. “Pois é, e eu sou outro ‘quibebe’”, completava eu, em meio a goles de catuaba com energético.

Sim, catuaba com energético. Porque eu sou uma estranha pessoa que não toma cerveja, mas que bebe tudo o mais que contenha álcool.

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Outra mesa de bar, outro bar, outra cidade, outra amiga. Tomávamos eu e minha amiga Marlôca umas batidas de coco. Em meio a trocas de olhares com um vizinho de mesa, cutuquei minha amiga e perguntei a ela o que achava daquele que queria ser meu novo amigo.

Marlôca analisou o indivíduo (ainda que extrinsecamente), e compartilhou comigo sua impressão, em um misto de sinceridade e sabedoria etílica:

- É feio. Deve ser bom de cama.

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- CHUPA!, esbraveja um.

- CHUPA, CARALHO!, complementa outro, aos gritos.

É muito divertido cair em um bar em meio a uma partida de futebol rolando na televisão. Hoje em dia não se comemora mais um gol com apenas um gooooooolllllllll!!!!!!! Para a alegria ser total, há que se completar agora com esses novos gritos de guerra, calorosos e suspeitos.

E eu que não gosto de futebol, acabo me contagiando por toda essa efusão e faço coro:

- CHUPA!, grito eu da minha mesa.

- CHUPA, CARALHO!, me respondem em uma quase forma primitiva de comunicação. É o maior barato!

É também a deixa para o torcedor mais próximo, rosto vermelho, copo na mão, começar a comentar comigo sobre o Fulaninho Carioca, Sicraninho Paulista, Beltraninho Baiano, e por aí vai, e eu, que nunca ouvi falar de nenhum deles, vou concordando com tudo. Tem coisa mais linda?

E, ainda que imbuído de intenções menos esportivas e mais sarcástico-libidinosas, já me sentindo parte do clube, penso em contribuir com a incorporação de um novo brado para as celebrações. Quando meu time (leia-se o primeiro a fazer um gol) meter a bola na rede, gritarei com toda a força de meus pulmões: goooooozzzzzaaaaaaaa!!!!!!!

E há de chegar o dia em que se ouvirá nos estádios e bares pelo país:

- CHUPA!
- GOZA!
- GOZA, CARALHO!

Assim até acabarei gostando de cerveja e futebol. E passarei a assistir a todos os jogos de todos os campeonatos nos bares do eixo Rio - São Paulo.

Sábado, Maio 09, 2009

Coisa mais linda


“‘Vamos’imbora’ pro bar! Beber, cair e levantar! Beber, cair e levantar, beber, cair e levantaaaar....”, canta dona Véia, que zela pela ordem de meu local de trabalho, uma das músicas de seu vasto repertório forrozeiro.

E com esta inspiradora letra introduzo esta compilação de declarações de amor, revelações, opiniões sinceras, ou simples abobrinhas, ditas por pessoas, conhecidas ou não, por mim ou por outros, não importa porque ninguém vai se lembrar mesmo, em elevado estado etílico, entreouvidas em mesas de bares, botecos, boates, festas e afins.....:



Em um grupinho de amigos, a amiga avisa:
- Gente, tenho que ir no banheiro!
O amigo comenta:
- Eu acabei de ir!

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Em outro grupinho, de amigas (de ambos os sexos), uma frase solta por uma delas (do sexo feminino), dita mais alto, pega em meio à conversa, mas não importa o contexto:
- Na bunda eu não gosto de apanhar!

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- Tá vendo aquele ali? É o Chiquetê de Tal, estilista famoso, alta costura, me apontou meu novo amigo de taça.
Olhei.
- Ele desenha umas roupas lindas, vestem super bem, aprovava minha nova amiga de taça.
Olhei de novo.
- Ele só não SE veste super bem, né?
Gargalhadas aprovadoras de meus novos amigos de taça.

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Em outro grupo, mulher pega o telefone e liga para um amigo distante. Após alguns minutos de conversa (que durou o dobro do que podia ter durado, se as informações tivessem sido passadas apenas uma vez), ela se despede dando um recado de seu marido:
- Jorge, o Alberto está te mandando um abraço, o Alberto te adora! Alberto, você quer falar com o Jorge?, ela se vira para o marido. Jorge, o Alberto te adora, está te mandando um abraço enorme, ele te adora!, repete ela.
Alheio a tudo o que se passa ao seu redor, Alberto, braços cruzados, cabeça tombando para a frente, dorme feliz.

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- Eu estava olhando pra você....sabe que você é a cara do meu sobrinho Gui? Ele não é a cara do Gui, Maristela?
- Não é nada, Ronaldo, ele é muito mais bonito que o Gui!
Gargalhadas de agradecimento pelo elogio.



Como diz minha amiga Mary Black....tem coisa mais linda que bêbado?

Sábado, Abril 18, 2009

De semana em semana
ou De como The Smiths e Roupa Nova valem mais do que uma dúzia de caquis


Não, esta não é mais uma crônica sobre sexo. Ou melhor, não apenas sobre sexo. É também sobre o amor. Amor que nosso descrente herói acreditou ter encontrado após, durante anos, ter seu coraçãozinho mais batido que carne de segunda. Um encontro bem ao gosto de nosso herói, aparentemente orquestrado pelo destino...

Estava ele em sua tradicional sessão cinematográfica da meia-noite de sábado, disposto a dar uma esticadinha em uma....balada (afinal nosso herói está em São Paulo) não muito longe dali. Antes de começar o filme, porém, nosso desastrado herói derrama cappuccino sobre si, o que o leva à constatação de que ele deverá dar uma passada em casa após o filme, para trocar de camisa e chegar em sua esticadinha com uma aparência mais digna (embora houvesse a opção de simplesmente chegar ao local em questão descamisado mesmo, traje muito comum por ali...).

Camisa trocada, lindo e cheirando a Passe Bem e Davidoff, hora de ir. Começa a chover. E a noite de nosso herói vai literalmente por água abaixo, adiando seus planos por uma semana – afinal o lugar para onde iria só abre aos sábados, e para nosso herói só há interesse ali em dias sem chuva, pois com ela seu campo de ação se restringe: é na área externa do lugar onde fica seu público-alvo. Enquanto os descamisados ficam como caranguejos em um grande mangue fechado entre paredes, lambuzados de suor e executando frenéticas coreografias estimulados por uma esquizofrênica mistura de efeitos de luz (laser), som (bate-estaca), fumaça (de todos os tipos) e balas (que não são as Juquinhas), nosso asséptico herói circula ao ar livre, entre aqueles vestidos de calça e camisa (de preferência pólo) e com idade superior a 38 anos (os velhinhos, segundo classificação etária de amiga de nosso herói, Vivi, para quem aqueles acima de 30 já estão passados). Assim, diante da chuva, nosso resignado herói, que já tem 30 anos, achou por bem adiar sua empreitada e foi ler antes de dormir.

Uma semana depois...

Céu limpo, caminho aberto. Esticadinha pós(novamente)-cinema da meia-noite (enfim!). Flerte em volta da piscina (nosso herói sabe o que faz – encontros amorosos com guarda-chuvas em cena só ficam bem em musicais). Esticadinha pós-flerte em casa de seu novo amigo acima dos 38 (sim, o do entorno da piscina). Esticada que, para grata surpresa de nosso cético herói, se esticaria além do que ele imaginava.

Assim, ao longo desta nova semana, nosso herói passou noites de dormidas de conchinha, jantares, almoços e desjejuns a dois, escurinhos de cinema a quatro mãos, entusiásticas trocas de e-mails e mensagens ao longo dos dias (e noites). Lembranças prosaicas, porém especiais, “comprei esse caqui pensando em você!” (após a declaração de nosso herói acerca de suas preferências frutíferas durante o primeiro café da manhã juntos). Discussões sobre rumos. E tudo isso com alguém que finalmente nosso ultimamente-cada-vez-mais-exigente-herói considerava à sua altura! E assim se passou uma semana completa! Nosso herói já recuperava sua fé na humanidade.

Na semana seguinte...

A semana mal havia começado. E um nosso estupefato herói constatava, diante da tela de seu computador, que ela havia começado mal também. Sim, ele fora dispensado via e-mail. A explicação? Nada convincente (geralmente é assim). Até porque algo desse tipo não tem explicação, pelo menos no entendimento de nosso herói, a quem foi pedido, no dito e-mail, que entendesse a situação.

Após duas mal-sucedidas tentativas de contato telefônico, nosso já-indignado-mas-com-classe-herói manda uma mensagem pedindo a seu ex-amigo (que ele já não considerava à sua altura) que pelo menos lesse o e-mail que ele lhe enviaria, assim como ele lera o dele, o que, no entendimento de nosso injustiçado herói, era muito justo.

No dia seguinte, novo e-mail. O ex-amigo de nosso herói dizia que não havia recebido o e-mail mencionado (e realmente nosso herói acabara não o enviando, ocupado que ficou no par de horas ao telefone com sua amiga para todos os foras, digo, para todas as horas, Minie, a quem nosso herói chama carinhosamente de Minie C.V.V. – Centro de Valorização do Via...digo, da Vida), e que não havia retornado a ligação por causa da “mensagem desaforada” que nosso esse-sim-ofendido-herói havia lhe enviado.

“Desaforado, eu?”, clicou então nosso ultrajado herói, “desaforo é dar fora por e-mail!”, opinou ele, completando que com mais aquela tinha até perdido a vontade de escrever o que pretendia. Recebeu uma resposta ainda mais malcriada, algo como “não foi um fora, pois não tínhamos uma relação”.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, contou nosso bufante herói, lembrando consigo que, se não fosse tão bobo, a última parte daquela sentença ele é quem deveria ter usado, antes de irem ao supermercado em um domingo à tarde: “não temos uma relação, portanto não vou ajudá-lo a empacotar suas compras, enfiá-las no carro e subir com elas”, nosso herói deveria ter lhe dito na ocasião (bem que o RPGista de nosso herói, que faz parte do time dos descamisados do semanal estabelecimento em que se deu o início daquela re...., digo, rolo, já o advertira tempos antes que ali não era o local ideal para outras intenções).

De qualquer forma, ainda assim nosso autocrítico herói refletiu e se perguntou se não teria dito ou feito algo que não devia durante o último e fatídico fim de semana. Chegou à conclusão de que poderia ter sido mal interpretado em alguns pontos, uma vez mais questionou sua questionável habilidade em lidar com o ser humano, e.....mas ora, pipocas, reconcluiu ele quando lhe veio o refrão de How soon is now, dos Smiths, enquanto vagava por seu território da Paulista, “You shut your mouth (nosso herói zangando-se consigo mesmo) / How can you say? / I go about things the wrong way / I am human and I need to be loved / Just like everybody else does....”.

E não, ele não pensou no restante da música, um pouco mais sombrio (e por demais incômodo para o contexto): “There's a club, if you'd like to go / You could meet somebody who really loves you / So you go, and you stand on your own / And you leave on your own / And you go home, and you cry, and you want to die / When you say it's gonna happen now / Well, when exactly do you mean ? / See, I've already waited too long / And all my hope is gone”…

Em vez disso, lhe veio então à mente algo bem Roupa Nova (não, não me refiro à renovação do guarda-roupa – embora esta também possa ser uma boa terapia -, mas ao grupo com breguices para todos os estados de espírito): “Quando a paixão não dá certo / Não há por que me culpar / Eu não me permito chorar / Já não vai adiantar / E recomeço do zero / Sem reclamar!”....ah, o coração pirata de nosso sucateado herói! Praticamente a Maria do Carmo (nesse momento ele passava a poucos metros do ex-prédio da Rainha da Sucata, após comprar um milk-shake de Ovomaltine - para afogar as mágoas - no Bob’s ao lado). Em busca de respostas, procurou abrigo em um lugar sossegado e propício à reflexão. Foi ao cinema.

“Ele não está tão a fim de você?”, confirmava a bilheteira o filme escolhido por nosso discreto herói, que em vão tentara não fazer alarde de sua situação, evitando tocar na ferida, ao pedir sua entrada para a “sala 6, por favor”. Silêncio. Por alguns segundos nosso herói encarou com curiosidade aquela pessoa diante dele, tentando adivinhar se aquela era apenas uma pergunta retórica ou se havia alguma maldade camuflada.

“Ele não está nada a fim de mim, moça!”, teria respondido ele, caso a moça em questão fosse uma garçonete. Garçonetes sempre têm uma palavra de estímulo para os momentos difíceis de nosso herói. Mas aquele robótico ser à sua frente, dele separado por um frio vidro, se comunicando por um microfone e perguntando mecanicamente a nosso herói se ele não estava tão a fim dele, não inspirou muita confiança em nosso já-novamente-descrente-da-humanidade-herói. “Sim”, disse apenas, confirmando a sessão, e liberou a moça para atender o próximo da fila atrás dele, que já estava grande.

Nosso herói viu o filme. Mas não entendeu o final.

Nada como uma semana após a outra!


“Te vi passar na alameda Campinas. Tudo bem? Quando nos vemos? Bjs”, e o autor da mensagem no celular de nosso surpreso herói a encerrava com a identificação de seu nome e local de procedência. Não, não se tratava do mais novo ex-amigo de nosso herói, mas sim um que na verdade nem bem chegara a ser amigo dele, mas com quem nosso pegador herói trocara telefone alguns meses antes e acabara por se desencontrar do moço (e não, o local de procedência em questão tampouco era o mesmo de duas semanas antes).

Nosso mais-que-escaldado-herói, que dados os acontecimentos recentes tivera o reforço de certa lição que há muito já deveria ter aprendido em sua vida, respondeu com um literalmente torpedo: “Hoje. É só dizer onde e quando. Bj (nessa boca gostosa que eu tô louco pra provar!)”, sentindo-se assim um misto de peão de obra com Antonio Fagundes nas antigas propagandas da Marisa, dizendo “oi, princesa!”.

E aguardou o retorno de seu provável amigo.

Final A:

Silêncio. E nosso herói chega à conclusão definitiva de que definitivamente não sabe lidar com o ser humano.

Final B:

O onde e quando são marcados e concretizados. E nosso herói estabelece com seu novo amigo uma sincera....relação, sem telefonemas e e-mails apaixonados, sem promessas de risotos ou planos de outros programas. E sem a lembrança do caqui. Uma relação honesta, enfim. E nosso herói descobre que começa a entender e finalmente aprender a lidar com o ser humano.


Qual das opções de finais aconteceu? Não importa. Mesmo porque nosso sábio herói não está interessado em nenhuma das duas, embora saiba que ainda passará por muitas destas, A, B, C, D...., até chegar àquela que realmente lhe agrade.

Quando este final chegar, decerto será escrita uma crônica a respeito, relatando também o início e o meio da história. Mas uma coisa nosso herói já pode adiantar: supermercado juntos, só casando.

Sexta-feira, Abril 10, 2009


Sexo implícito


Para os anais do duplo sentido – parte 1

“Ela me deixa louca é por trás!”, confessava Robudinha, bem na hora do almoço. Não, minha amiga não é adepta de prática sexual comum entre dois homens aplicada a duas mulheres, Robudinha que nem chegada em meninas é. Ela se referia a uma velha famigerada nossa, que costuma deixar todos loucos de raiva, mas que em relação a ela faz as coisas às escondidas. Ah, tá....

Para os anais do duplo sentido – parte 2

“Como você prefere atrás?”, quis saber de mim a cabeleireira. Não, não respondi “com carinho”, ou “só por amor”. Ela estava me perguntando sobre como eu queria que ela aparasse meu cabelo atrás, ou seja, naquela parte da anatomia humana conhecida como nuca, afinal era a primeira vez que ela me atendia e não conhecia minhas preferências – estético-capilares! Mas que ficou estranho, ficou. A colocação dela, não o resultado do corte, felizmente. Caprichou, Susie!

O KY da Beth

Beth Chiclete, companheira de labuta, veio tirar comigo uma dúvida de português. Acabamos falando sobre a maldita...reforma...ortográfica, aquela que acabou com nossa língua, um dos últimos patrimônios nacionais dos quais ainda podíamos nos orgulhar (nos restando o carnaval, o futebol, o Cristo Redentor....e a bunda da mulata).

Em relação a um ponto da “reforma”, Beth declarou que não teria problemas em se adaptar: “eu sempre usei k, y e w!”. Lógico que eu não poderia deixar essa passar em branco: “você sempre usou KY?...”. “E w!”, complementou Beth.

Achei melhor não me estender no assunto. Pelo menos não dessa forma, tão a seco...

Cheia de si...

Estávamos eu e Papai Sabe Tudo parados em um sinal de trânsito. No que passa uma louríssima (ainda que não de nascença, muito provavelmente), peitoril empinadíssimo (ainda que não de nascença, certamente), bronzeadíssima (ainda que artificialmente) e modelito justo e coloridíssimo do tipo “gente, cheguei!!!”.

Atravessava ela a rua em toda sua auto-estima turbinada, carregando sacolas de roupas de grife. “Cheia de si!”, arrisquei eu um comentário, para não ter que ficar sem falar nada diante de tanta...pompa.

“Cheia de silicone!”, bem complementou Papai Sabe Tudo, menos atento ao perfil psicológico do que nos atributos físicos da moça.

De onde viemos

História contada por minha irmã Material Girl:

Seu filho caçula Espoleta viu uma foto de Material da época em que ela estava grávida dele, com o primogênito Afilhado a seu lado. “Espoleta!”, apontou ele para seu irmão mais velho na foto, acreditando tratar-se dele próprio.

Explicou sua mãe: “não, Espoleta, este é o Afilhado. Na verdade, nesta foto você ainda estava dentro da minha barriga, olha como ela estava grande!”. Espoleta olhou. E concluiu, horrorizado com a antropofagia materna: “você me comeu?!?!”.

Seu pai, que escutava a conversa, deu sua contribuição didática: “não, eu que comi a mamãe”, explicou assim meu cunhado a origem da vida a seu filho, que diante de tanta informação canibalista se calou, de olhos arregalados.

A cabeça do pequeno Espoleta deve ter dado um nó.


Foto: goooogle

Terça-feira, Março 17, 2009


Samba de verão do braço quebrado ou
Tarde demais para esquecer um encontro no calçadão de Ipanema


Nosso herói viu só que amor
Nunca viu coisa assim
E passou, nem parou, mas olhou só pra ele

E voltou, nosso herói foi atrás
Foi pedir, foi falar, foi dizer que o amor
Foi feitinho pra dar

Mas antes de dizer isso tudo nosso herói disse “e aí, tudo bem?”, “tudo e você?”, lhe foi respondido, “o que houve com o braço?”, mostrou nosso atencioso herói preocupação com seu novo amigo, que tinha o braço numa tipóia. Ele ficou sabendo da queda mal caída durante um treino de caratê do moço, e compartilhou com ele sua experiência do ano anterior, quando torceu o pé, em situação menos esportiva.

Entre outras amenidades trocadas durante o ocasional encontro matutino no calçadão ipanemense, nosso suado herói teve ainda oportunidade de, falando sobre o tempo, contar sobre como é difícil com todo aquele sol viver em uma cidade como São Paulo e não ter a praia sempre à disposição, apenas o impróprio para mergulho lago do Ibirapuera. Observação esta por sua vez partilhada por seu novo e também auto-exilado amigo, a quem lhe resta o igualmente infecto lago do Central Park.

Silêncio. “Mas Nova York é Nova York”, recobrou-se rapidamente nosso herói. “Mas não é o Rio...”, argumentou seu expatriado novo amigo. Estava uma linda manhã de sol, e nosso herói não quis se aprofundar na questão, pois, não demoraria muito, em breve viria à tona que entre Rio, São Paulo e Nova York, ele estava levando a pior (pelo menos em termos de uma linda manhã de sol).

“Tenho um compromisso daqui a pouco, mas vamos nos encontrar mais tarde?”, propôs enfim o moço. “Claro, vou te dar meu número, que eu estou sem telefone para registrar o seu”, respondeu nosso desprevenido herói. “Ih, eu também estou sem...”. Novo silêncio. A água daquele balde estava mais gelada que o mergulho que nosso herói acabara de dar. “Putz, não costumo trazer celular para a praia, venho sozinho, caio no mar, corro, já viu...”, tentava justificar-se nosso injustificável herói, maldizendo para si o mais cretino e absurdo dos hábitos, o de não levar celular para a praia!!!

“Vamos marcar uma hora, então! Pode ser naquele quiosque?”, apontou o rapaz, salvando o dia. Nosso herói concordou prontamente, marcaram horário e se despediram, “até mais!”. E seguiu seu caminho, um tanto quanto incrédulo quanto à consumação do reencontro, cujo ajuste, apesar das partes em questão serem ambas compostas por cariocas desnaturados, lhe pareceu por demais carioca, “a gente se vê ali!”...

Ademais, a equação encontro marcado passível de cano em um cartão postal + braço quebrado lhe remeteu imediatamente àquele filme antigo, em que Cary Grant e Deborah Kerr se conhecem em um navio e marcam de se encontrar no Empire State. Deborah não aparece e Cary sofre, pensando ter tomado um grande bolo. Mas eis que Cary descobre, tempos depois, que não fora rejeitado por sua amada, mas sim que esta, indo feliz encontrar-se com ele no arranha-céu novaiorquino, fora atropelada no caminho e ficara paralítica.

Pronto. A fértil imaginação de nosso trágico herói já estava com suas engrenagens acionadas a pleno vapor: e se seu já avariado novo amigo, ao atravessar ansioso a Vieira Souto, não vê o 175 que vem a toda e o acerta em cheio, arremessando-lhe a metros de distância e quebrando-lhe o outro braço e as duas pernas? Medo.

Cinco horas, quiosque próximo ao posto 10. Nosso estratégico herói ainda não havia chegado – é claro que ele não seria pontual a um encontro, principalmente um tão potencialmente ficcional. Cinco e dez. Chegava nosso herói ao encontro, tomando o máximo de cuidado ao atravessar a rua, afinal não estava livre da possibilidade de ser ele o acidentado (na menor das hipóteses, poderia cair em um bueiro aberto e torcer novamente o pé). Chegando são e salvo no calçadão, para seu júbilo, avistou seu pontual novo amigo, tomando água de coco e com o mesmo (e apenas este) braço quebrado de antes. “Pensei que você não viesse”, saudou ele. “Claro que eu não deixaria de vir”, rebateu nosso aliviado herói.

E assim teve início um idílico fim de semana, em que nosso cuidadoso herói revezou-se entre as funções de amante e enfermeiro. Mas, assim como teve hora marcada para começar, a romântica história já começara com hora determinada para acabar. Domingo à noite nosso herói regressava para a terra da garoa, e, dois dias depois, seu efêmero amigo partiria para a Big Apple. “Você tem que passar as férias em Nova York!”, sugeriu ele. “Vou sim!”, prometeu nosso herói.

“Contanto que a gente fique longe do Empire State”, completou para si mesmo nosso cauteloso herói.


Foto: gooooooogle

Terça-feira, Março 03, 2009

Um milk-shake sem fumaça, por favor!


Mais uma dessas noites de quinta-feira a vagar pelos arredores da Paulista. À procura de um milk-shake que me trouxesse alegrias e serotoninas. Escolha mais óbvia, top of mind, Ovomaltine do Bob’s. Estava fechado, o Bob’s. McDonald’s? Também fechado. Bela Biba, a super padaria e mina de ouro 24 horas? Estava fechando à meia-noite, por conta de uma reforma.

É nessas horas que dá vontade de morar no Itaim. Ou de ter um carro (opção mais complicada, pois para isso eu teria primeiro que gostar de dirigir). Ou de ter um namorado que me leve para tomar um milk-shake na Prime Burger, Joakin’s, New Dog, The Fiftie’s etc etc etc. Bem, se houvesse metrô no Itaim já facilitava (estação Joaquim Floriano!).

Mas enquanto o metrô não chega ao Itaim Bibi e enquanto não chega alguém com quem eu possa compartilhar um sorvete batido com leite na Prime Burger, Joakin’s, New Dog, The Fiftie’s etc etc etc, resolvi conferir o do Vabibba Café, logo ali.


“As pessoas ainda fumam por aqui?”, perguntei à garçonete antes mesmo de me sentar, sentindo a inconveniente presença de dragões expelindo fumaça. “Lá em cima”, respondeu a mocinha, apontando. “Mas não pode mais, vou denunciar vocês”, ameacei eu (ainda que em tom fofo), provavelmente abalado pelas tentativas frustradas de busca pelo meu objeto de desejo daquela noite. “Por favor!”, respondeu enfática a pobrezinha, que sofria mais que eu com todo aquele veneno no ar, diariamente.

“Deixa comigo”, prometi eu, agora não mais o cliente-chato-e-carente-que-já-chega-reclamando, mas sim o companheiro-do-clube-dos-pulmões-limpos-que-sofrem-com-a-dragonesca-falta-de-educação-alheia, enquanto ela me dava o cardápio. Cafés, sodas italianas, salgados, quiches, café da manhã....cadê o milk-shake?

“Não tem milk-shake, moça? Eu queria tomar um milk-shake...”, lamentava eu, folheando e refolheando inconformado o cardápio. “Milk-shake a gente não tem....”, contou ela em tom de desculpas, já cúmplice minha, na saúde e fora dela (e não disse “milk-shake não vou ter”! Minha simpatia pela moça só fazia crescer).

Mas eu não me deixaria abater. Após outra rápida análise do menu, chamei minha quase alma gêmea: “vou querer então esse iogurte batido com syrup de chocolate, e junto você bate uma bola de sorvete de morango”, pedi eu, decidido. “Bater o sorvete junto com o iogurte?! Vai ficar uma delícia!”, aprovava aquela a quem eu já quase pedia em casamento.

Ao pagar a conta, no caixa, veio outra garçonete me abordar, toda serelepe: “vem cá, quero saber de onde você tirou essa idéia de iogurte com sorvete, foi ótima!”. “É que eu estava com vontade de tomar milk-shake, e, como não tinha, resolvi criar um!”, expliquei humildemente minha improvisada genial criação.

“Já que fez tanto sucesso, acho que vocês deviam incluir no cardápio e botar o meu nome!”, concluí eu com minha humildade. “Ah, com certeza!”, aprovaram unânimes as duas, com a caixa fazendo coro desta vez. E me despedi das novas admiradoras de minha figura noturna solitária (garçonetes adoram isso, acho que eu lembro a elas o Batman), encantadas também por minha acidental super invenção.


Hoje liguei para a subprefeitura da Sé, o órgão competente mais próximo que me foi indicado pela Covisa (Consultoria Técnica em Vigilância Sanitária) para denunciar o descumprimento da lei 9294/96, “que proíbe o fumo em ambientes fechados de qualquer cidade brasileira”.

Daqui a alguns dias volto no Vabibba para conferir se minha queixa surtiu efeito. Caso a fumaça no lugar tenha definitivamente se dissipado e ainda encontre como outra novidade uma certa bebida gelada e cremosa fazendo parte do cardápio, cobrarei, a título de homenagem, meu nome batizando o milk-shake de iogurte.

Terça-feira, Janeiro 13, 2009



No stress?,
ou De como 10 dias são mais do que suficientes para a Família Trapooh passar junta, ainda que em Garopaba

Pouco mais de um ano depois de seu último encontro itinerante, a família Trapooh se reuniu novamente, desta vez para os festejos de Reveillon. Agora a trupe, digo, o time, estava desfalcado das presenças de Mãe Pooh, que ficou no Rio cuidando de sua caçula, Trombadinha, e de Tio Ilustríssimo, que preferiu ver o ano chegar antes e assistiu aos fogos pipocarem na Tailândia.

Para reunir a segregada família, Papai Sabe Tudo alugou uma casa em Garopaba (sim, aquela cidade depois de Florianópolis, das camisas no stress), onde 2009 seria recebido em companhia de seu filho carioca do Rio, Raspa de Tacho, seu filho carioca de São Paulo, eu, sua filha carioca de Curitiba, Material Girl, o agregado, digo, Cunhado Curitibano, e os rebentos do casal, Afilhado e Espoleta (minha outra irmã, Ternurinha, mais uma vez se escusou de participar da trama).

Imbuído de todo seu espírito aventureiro (e econômico), lá fomos nós – Papai, Raspa e eu, que havia passado a ceia de Natal em companhia de Mãe Pooh – pela estrada afora, do Rio para a longínqua terra dos desestressados, ao sul do país. Ainda com perus, bacalhaus e rabanadas no bucho, botamos o pé na tábua logo cedo, no dia 25. Pernoitamos em Curitiba, em casa de Material Girl. Enquanto comíamos uma pizza, Material contou da advertência de Ternurinha, que não esquecêssemos de levar nossas focinheiras.

“E por que ela não veio, a Ternurinha?”, quis saber Cunhado Curitibano. “Ela não encontrou uma focinheira do tamanho dela!”, respondeu minha afiada irmã primogênita, em meio a gargalhadas com seu próprio gracejo (acompanhada pelo resto da família, é claro). “Esse fim de ano vai ser divertido, hein?”, comentou comigo Cunhado. “Vai”, respondi.

Lições de vida

Ainda na primeira parte do trajeto, Rio-Curitiba, antevimos o quão proveitoso seria aquele passeio. Uma frutífera troca de conhecimentos já se anunciava, da qual sairíamos indubitavelmente enriquecidos, iniciando um novo ano com novas e importantes informações. Eu, por exemplo, após elogiar a destreza de meu pai ao volante (por deboche?, ou ironia?, ou sarcasmo?, como será explicado a seguir), fiquei sabendo que destreza vem de destro, direito, e que, ao contrário, o sinônimo de esquerdo é sinistro, denotando o preconceito àqueles que se valem da mão esquerda para executar suas funções manuais (sim, meu pai é canhoto, provavelmente por isso ele não seja assim tão destro na direção).

Durante o caminho, tive a satisfação de explicar a Papai Sabe Tudo a diferença entre TOC e transtorno bipolar - segundo ele, tudo doença de quem não tem o que fazer. Já o noventista Raspa de Tacho adquiriu um pouco de conhecimento de música brasileira dos anos 80, ao falarmos a ele sobre a Blitz, cujas músicas embalavam as viagens familiares de minha tenra infância, e que naquela nova jornada, como que por encanto, ressurgia nas rádios por duas vezes, a mesma canção: A dois passos do paraíso (aquela do Arlindo Orlando, um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, que escafedeu-se deixando em prantos sua amada Mariposa Apaixonada de Guadalupe).

E os próximos dias nos reservavam novas e cruciais trocas de saberes. Esclarecendo uma dúvida levantada por Raspa, eu e Papai explicamos, o mais didaticamente possível, ilustrando com exemplos familiares, a diferença entre deboche, ironia e sarcasmo (tema pertinente, com cadeira cativa na família: a irmã de Papai Sabe Tudo, Tia Veríssima, vive lhe passando pitos, dizendo que ele e seus filhos, eu e Material, somos três debochados).

Naqueles ensolarados dias, Papai Sabe Tudo também incorporaria a seu já vasto vocabulário uma nova palavra: larica. Explico. Estávamos todos tomando um belo açaí em um quiosque em Guarda do Embaú, quando minha irmã sugeriu que comêssemos a seguir um doce num estabelecimento chamado Larica, rindo do nome escolhido para o local. Contei que em Trindade também tem um lugar chamado Larica, lembrando que o nome é bem apropriado a balneários como aqueles.

Eu e Material Girl rimos, para curiosidade de nosso pai, que não alcançava a graça daquele papo estranho, mas já previa que boa coisa não podia ser: “O que foi, hein? Do que vocês estão rindo? O que é larica?”, quis saber. “É um nome pitoresco, legal para lugares praianos assim”, tentei despistar, mas Material acabou lhe explicando a real acepção do termo.

Complementei explicando que, assim como o Leite Moça acabou popularmente se tornando um genérico para identificar todas as marcas de leite condensado, a larica também expandiu sua significação para qualquer desejo de comer um doce, a qualquer hora, não necessariamente apenas naquela de origem. “Assim, se um dia você ouvir Raspa de Tacho dizendo que está na larica, não se assuste, é uma pura e simples vontade de ingerir açúcar”, exemplifiquei, em um belo e fraternal gesto de livrar a barra de meu irmão surfista de 17 anos de idade, eu que não suporto qualquer tipo de fumaça que deixe fedendo o ar, meu corpo ou meu hálito. Às vezes eu sou um fofo.

A sensatez de Ternurinha

Tamanho ganho de conhecimento não se restringiu apenas ao círculo Pooh – Papai Sabe Tudo – Raspa de Tacho, porém. Em Garopaba também tive a oportunidade de ensinar a meu sobrinho caçula, Espoleta, a Lei da Ação e Reação de Newton, com exemplos práticos: quem dá tapa, leva tapa, quem morde, é mordido. Minha irmã interpretou mal o intuito didático de tio tão zeloso, e, indignada, citou o manjado “Deus escreve certo por linhas tortas”, referindo-se a minha espontânea incapacidade reprodutora. “Eu diria que a natureza é sábia, porque torta é a sua cabeça”, corrigi.

Assim, aos poucos a recomendação de Ternurinha ia se revelando realmente bastante válida, pena que não tivéssemos lhe dado a devida atenção e ter deixado passar tão indispensável item na mala de uma viagem em família, principalmente uma família cujos irmãos não praticamente se atracavam para disputar quem vai tomar banho primeiro depois da praia há tantos anos, e sentiam falta disso, como veio a acontecer em um daqueles escaldantes derradeiros dias de 2008. Felizmente, na falta de nossas focinheiras, Papai Sabe Tudo e Cunhado Curitibano se incumbiram de prevenir o ataque de Material Girl à minha integridade física.

Quarto de princesa

Todavia, outro fator desencadeador de confrontos fraternos em férias bastante comum foi por nós desprezado logo de cara: a escolha dos quartos. Eram três, cada um de uma cor. Quando adentrei aquele com a parede cor de rosa (com um trio de borboletas de plástico colado, coberto de purpurina), cortinas e tapete de tricô na mesma cor, não tive dúvidas: “é meu”.

“Material Girl e Cunhado Curitibano ficam obviamente no de cama de casal, com Espoleta no colchonete, Papai Sabe Tudo e Raspa de Tacho podem ficar na cama de casal do outro quarto e eu fico neste com Afilhado, de camas de solteiro”, sugeri. Às vezes eu sou muito fofo. Sugestão aceita, prontamente batizei aquele recinto onde se daria meu sono de beleza pelos próximos dias: quarto de princesa.

Não vinde a mim as criancinhas

Estava um dia eu, lindo, inteligente e sossegado em meu quarto de princesa fazendo minha leitura noturna de um livro de crônicas do Woody Allen quando me aparece Espoleta: “Pooh!”, anuncia ele sua chegada, abrindo a porta. “Ai, meu Deus”, penso eu, minha alergia a crianças já me fazendo coçar. Ele vem até minha cama, me abraça e me dá um beijo no rosto. “Que bonitinho, ele também sabe beijar, além de bater e morder”, considerei afinal.

Ele então se afasta, “tchau”, apaga a luz e fecha a porta. No escuro, livro na mão, considero o desejo de enviá-lo para o lugar que dá nome ao que leio: Fora de órbita.

Cuidado com a Cuca

Não foi apenas a peleja com minha irmã que fez tremer o chão da pacata Garopaba. A família já havia dito a que veio logo na primeira noite, representada por Raspa de Tacho. Havia, na casa vizinha, um grande e velho golden retriever, o Beethoven, que não chegava a ser magnífico, mas era extremamente bonachão. E todos se afeiçoaram ao bicho, Espoleta ficava chamando-o pelo muro, “Bitôôô! Vem! Bitôôô! Vem!” etc. E todos foram dormir.

À noite escuto gritos. Uma voz que eu não identificava gritava violentamente, parecendo uma briga. “Que vizinhança barraqueira”, pensei, e é claro que tentava discernir alguma palavra de todo aquele palavreado vociferado. Até que consegui identificar a voz de Papai Sabe Tudo em meio a toda aquela gritaria, e ouvi claramente ele dizer o nome de Raspa de Tacho.

Meu irmãozinho caçula em perigo! Pulei da cama já adrenalizado o suficiente para arrancá-lo de dentro da boca de uma cobra gigante ou debaixo do machado de algum serial killer local sobre o qual poderíamos não ter sido alertados. Quando entrei no quarto deles, o menino se estrebuchava na cama, “ah!!!!! Sai! Sai!”, e meu pai o sacudia, em vão, que nada o despertava daquele estado que mais parecia uma possessão, Raspa era praticamente a menina Reagan.

Em seguida assomaram à porta Material e Cunhado, igualmente atônitos. Eis que enfim Raspa desperta de seu sonho demoníaco, “que foi? Quem estava gritando?” (!!!). “Cadê o cachorro?”, perguntou, olhando para os lados. Ficamos então sabendo que o escândalo que acordou toda a vizinhança (no dia seguinte ficaríamos sabendo que os vizinhos estavam para chamar a polícia quando nos escutaram então rindo e deduziram o que se havia passado) tinha sido causado por um pesadelo com a fera Beethoven, o Bonachão, que ficava gemendo abaixo da janela do quarto.

Raspa de Tacho foi devidamente vaiado e cascudeado, e é claro que por isso o pobre foi alvo de nossos tradicionais deboches pelo resto de nossa estada. E eu saí do quarto dele ameaçando: “mais uma dessas e é você quem vai ficar no quarto de princesa!”.

Velha infância

Além da música do Arlindo Orlando, outras lembranças de menino surgiram naqueles dias. Tive um grato reencontro com o tatuí, aquele bichinho branco e simpático que vemos quando a onda termina na areia e volta para o mar, e eles rapidamente vão cavando, fazendo cosquinha nos pés de quem passa por cima, desesperadamente tentando escapar de crianças como eu, 20 anos atrás (quando ainda havia tatuís em Ipanema), e de Espoleta, hoje, que os chamava de “ratatui”.

A guerra de mamonas também foi um dos esportes praticados (embora o que tenha feito mais sucesso tenha sido o moderno enraquetamento elétrico de mosquitos, com uma aparentemente infantil mini raquete de tênis que impiedosamente mata eletrocutados incautos mosquitos que caçamos em sua ronda pelo ar) em família. “Uma de minhas lembranças mais remotas é o Pooh tentando enfiar uma mamona na minha boca enquanto eu ainda era pequenininho”, solta de repente Raspa de Tacho.

Como? “Nunca coexistiram eu, você e um pé de mamona!”, me defendi da calúnia. “É, mas eu me lembro”, insistia Raspa na tentativa de me pintar um monstro maior do que sou (imagina, eu tentando enfiar uma mamona goela abaixo de uma indefesa criancinha, eu prefiro simplesmente me manter afastado delas!). “Você sonhou com isso, assim como sonhou que o pobre do Beethoven estava te atacando, seu problemático!”, e o alcancei e tentei enfiar quatro mamonas em sua boca. Até ser obrigado a bater em retirada diante da artilharia pesada que Afilhado, Espoleta e Papai Sabe Tudo formavam sobre mim.

Vacas, cachorros, pinga, uma presepada

Dia 31 de dezembro. A Família Trapooh tem a indigesta idéia de realizar um churrasco para a virada de ano. Eu, que venho sendo atormentado em sonho pelas vacas e bois que ingeri ao longo da vida, achei que seria de péssimo agouro comer os bichos justo nos primeiros minutos de um novo ano.

E fiquei no pão de cebola e nas lingüiças, de frango e suína (sim, a galinha e o porquinho também são bichinhos de Deus, mas vamos por etapas, até porque meus pesadelos são ainda só com os bovinos). E na caipirinha. A caipirinha ficava a meu cargo, não só de beber como de fazer para todos. Eu adoro fazer caipirinhas. É para mim motivo de grande orgulho ver os monstros que crio depois de ingerirem duas ou três doses de minhas caipirinhas. Vê-los revirando os olhos, enrolando a língua, trocando as pernas, subindo em cima da mesa, fazendo algo que jamais fariam em seu estado normal, enfim. Adoro. É um grande orgulho.

Era a hora de viver a experiência em família. Mas, para minha decepção, ninguém revirou os olhos, enrolou a língua, trocou as pernas, subiu em cima da mesa nem nada mais do gênero. Eles são ruins que nem eu, está no sangue. Mas compartilhamos o êxtase familiar. Explico. Na véspera, uma moça que nos vendeu geléias elogiou nossa linda família, que era "um êxtase" nos ver reunidos, que éramos bonitos, unidos e alegres. Pois depois de algumas caipirinhas foi super divertido lembrar disso, nos rendeu boas gargalhadas, um êxtase realmente.

Papai Sabe Tudo, após elucubrar sobre as pernas da “Beth Sangalo”, anunciou que iria dar as gorduras da picanha para a “Isabel”, a boxer da outra casa vizinha, que se chamava Mel. Ciumento, entrei na disputa, formando um bizarro triângulo com meu pai e uma cachorra. Peguei alguns corações de galinha e levei para a dócil cachorrinha: “o meu coração é da Isabel!”, bradava eu (como diz minha amiga Mary Black, tem coisa mais linda que bêbado?). Felizmente, no dia seguinte atestamos que estava tudo bem com Mel. E com Beethoven, que do outro lado também se regalou com nossa orgia carnívora.

Quanto a mim, resoluto em minha decisão de poupar as vaquinhas, lá pela terceira caipirinha já não encarava o assunto com tanta rigidez. “Um pedacinho só não tem problema”, deliberei, enquanto abocanhava com todos os meus dentes um sangrento pedaço de picanha. Fiquei ali parado um tempo, olhando, e minha conclusão foi que mais um pequeno pedaço também seria perdoável. E comi mais um. E fiquei só pelos dois nacos de carne mesmo, depois voltei para o pão com cebola. E para a caipirinha, claro.

Hora de dormir. Meu primeiro sonho de 2009? Eu ia ver a Mel, e ela era uma vaca. E eu a acarinhava, passava a mão no pêlo macio e bem tratado de sua cara, com olhos dóceis e inofensivos, e pensava: “por que cuidam tão bem dela, a tratam tão bem, se depois vão matá-la? Por quê?”, e me desconcertava diante do brutal e inevitável destino do pobre bicho, a quem nos apegamos em poucos dias. E o mundo se pareceu cruel por demais para mim.

Expulsos do paraíso

Ao contrário do planejado, que era ficar naquele paradisíaco balneário até domingo, fomos obrigados a voltar pra casa dois dias antes, impelidos pela torrencial chuva que se abateu sobre a cidade, e que parecia que vinha para ficar.

Novamente no carro, fazendo o caminho contrário, eu, Raspa de Tacho e Papai Sabe Tudo compartilhávamos os derradeiros momentos de êxtase familiar. Material Girl e sua família ficariam em Curitiba, eu ficaria em São Paulo, e Papai e Raspa seguiriam para o Rio.

“Sentiremos sua falta”, declarou Papai Sabe Tudo quando comentei sobre as escalas nas cidades. Achei que aquela seria uma boa oportunidade para uma revisão de todo o conhecimento geral acumulado naqueles dias, e indaguei: “isso foi um deboche, uma ironia ou um sarcasmo?”.
Imagem: goooooooogle